Sócrates

Sócrates foi o tema desse mês de setembro no Clube de Filosofia Antiga. E, depois de algum tempo sem estudar esse filósofo, posso dizer que foi um prazer esse reencontro!

Por isso, eu quero compartilhar algumas ideias contigo que nasceram dele.

Para quem não conhece…

Sócrates foi um filósofo grego, que viveu entre 470 e 399 a.C., e ficou conhecido por interpelar pessoas nas ruas e mercados de Atenas para questionar o que elas julgavam saber sobre virtudes como coragem, bem e justiça.

Por isso, acabou incomodando um bocado de gente em sua época, o que lhe rendeu um processo sob as falsas acusações de impiedade e de corromper a juventude. Mas, na verdade, por trás dessas alegações, estava um processo político que tentava calar Sócrates.

No final, ele acabou sendo condenado à morte por ingestão de cicuta, uma planta venenosa.

Sócrates e a busca pela verdade

Em sua busca pela verdade, Sócrates acabou se opondo a um grupo bem conhecido em Atenas: os sofistas.

Os sofistas eram mestres de retórica e oratória, por vezes, itinerantes. Não eram um grupo homogêneo, de modo que se caracterizavam mais por uma prática ou atitude do que por uma doutrina.

Então, eles iam de cidade em cidade, oferecendo educação aos jovens ricos que precisavam se preparar para participar da vida pública democrática. Assim, os sofistas ensinavam os jovens a serem bons oradores e a criarem argumentos convincentes, que os ajudassem a alcançar seus objetivos nas discussões públicas.

Justamente por isso, Sócrates criticou os sofistas. Segundo o filósofo, ao menos na visão que temos dele via Platão e Xenofonte, os sofistas não se preocupavam com a verdade, mas com o convencimento.

Essa ideia rapidamente se espalhou pela sociedade ateniense, como vemos Sócrates falando, já no Proêmio da Apologia de Sócrates, obra de Platão, que retrata o julgamento de seu mestre:

Não sei, Atenienses, que influência exerceram meus acusadores em vosso espírito; a mim próprio, quase me fizeram esquecer quem sou, tal a força de persuasão de sua eloquência. Verdade, porém, a bem dizer, não proferiram nenhuma.

Apologia de Sócrates, 17a

É importante fazer justiça aos sofistas aqui. A visão que temos deles, hoje, vem, principalmente, de seus maiores críticos. Por isso, devemos ter um olhar um pouco mais crítico e menos crédulo a tudo que Platão tenta nos dizer. Ainda assim, o embate eloquência x verdade permanece relevante para nós hoje.

Democracia: verdade e eloquência

Quando nos deparamos com o debate entre verdade e eloquência, tendemos a ficar do lado de Sócrates e defender a busca pela verdade. Porém, eu quero te convidar a pensar um pouco sobre isso…

Se quisermos defender a posição exclusiva da verdade, teremos de responder alguns problemas clássicos da História da Filosofia: afinal, é possível chegar à verdade? Se sim, como? A verdade é única ou é possível coexistirem diferentes verdades? E, se a verdade for múltipla, não cairíamos justamente numa batalha de convencimento, que premia aqueles que têm a melhor oratória, bem ao estilo sofístico?

Com o perdão do trocadilho, mas a verdade é que, numa democracia, essas respostas não são tão fáceis. Diferentes grupos, com variados interesses, vivem numa mesma comunidade, buscando algo em comum que permita a vida de todos. Assim são (ou deveriam ser) criadas nossas leis e nossos códigos de conduta, formais ou informais.

No entanto, sabemos que nada é perfeito, nem a democracia, e muito menos a brasileira. Mas esse reencontro com Sócrates me fez pensar nas questões que compartilhei aqui. E, se considerarmos o papel da tecnologia e das redes sociais para o convencimento das pessoas, temos todo um novo campo de análise que potencializa a discussão. Se antes Sócrates discutia um a um ou, no máximo, com algumas centenas de pessoas, agora são milhares, milhões de pessoas afetadas por um vídeo, um áudio de Whatsapp.

E nós?

Qual é o lugar da oratória e da retórica nessa sociedade? Como elas podem potencializar discursos importantes para a vida social? E qual é o lugar da verdade num mundo de fake news?

Eu termino esse mês com mais perguntas que respostas. Mas estou satisfeita. A Filosofia nem sempre nos dá respostas. Frequentemente, seu papel é incomodar e chamar para a conversa. Então, se você chegou até aqui e quiser compartilhar suas ideias comigo, deixa um comentário.

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Olá, eu sou a Fernanda!

Sou professora e doutora em filosofia, apaixonada por literatura. Mãe de gente, de pet e de planta. 

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