Sêneca e a mudança

Nenhum de nós é na velhice o mesmo que foi na véspera. Nossos corpos são levados pelo fluxo dos rios: tudo o que vês passa com o correr do tempo, nada do que vemos permanece. Eu mesmo, enquanto falo da mudança das coisas, já mudei. É isto que Heráclito diz: “No mesmo rio, entramos e não entramos duas vezes”. De fato, o nome do rio permanece o mesmo, mas a água passou. Isso fica mais claro com relação ao rio do que com relação ao ser humano, mas com uma correnteza não menos veloz também nos arrasta. (Sêneca, Cartas Morais a Lucílio 58.22-23)

Uma das coisas que mais me atraem no Estoicismo é que ela não é uma filosofia pra te deixar um bobo alegre. A filosofia estoica é realista. Ela diz: as coisas são assim, e aí? O que você vai fazer com isso?

Quando o assunto é mudança, o Estoicismo nos ajuda a pensar que nossa resistência a ela, por vezes, vêm de uma necessidade interna de termos controle da situação. Nós achamos que podemos ajustar o mundo à nossa vontade. Mas, nessa hora, lá vem o Estoicismo, de novo, para nos lembrar que não temos tanto controle quanto pensamos. No final das contas, podemos agir sobre o mundo, mas nada é garantido.

A mudança sempre vem

No texto que eu citei de Sêneca, ele começa lembrando ao seu discípulo Lucílio que nós estamos em constante mudança. A Fernanda que começou a escrever este texto não é a mesma que está escrevendo esta linha agora. E não será a mesma do final do texto. Apesar de nós só prestarmos atenção às grandes mudanças na nossa vida (casamento, separação, nascimento de um filho, mudança de emprego, morte de um ente querido), nós mudamos todos os dias. É uma ideia nova que se aloja na mente, a descoberta de um sabor diferente, um livro, um filme, uma série que você acabou de conhecer, as conversas cotidianas que fortalecem os vínculos com quem amamos… E todas essas pequenas revoluções nos passam despercebidas. São como as gotas de água que formam um rio. Cada uma delas, de modo quase invisível, é uma minúscula parte da mudança das águas.

Aliás, Sêneca, na mesma carta, cita a famosa frase de Heráclito sobre o rio, mas faz uma observação interessante: é mais fácil observar a mudança do rio do que a nossa própria mudança. Penso aqui que, talvez isso aconteça porque estejamos mais acostumados a olhar pra fora do que olhar pra dentro. É mais fácil notar a mudança das estações do que a mudança dos humores. Mas, queiramos ou não, tal como o rio, estamos igualmente sujeitos à correnteza do tempo e dos acontecimentos.

Mas, ao considerar isso, longe de fazer um apelo à passividade, o Estoicismo vem nos lembrar de algo fundamental: Nem sempre podemos controlar as coisas que nos acontecem, mas sempre podemos controlar as nossas ações e reações aos acontecimentos. Em nossa mente, nós podemos ser reis e rainhas, porque o máximo poder não é dominar o mundo, mas dominar a nós mesmos.


O trecho da Carta de Sêneca foi retirado do livro Edificar-se para a Morte, uma seleção das Cartas Morais a Lucílio, traduzidas pela professora Renata Cazarini.

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Olá, eu sou a Fernanda!

Sou professora e doutora em filosofia, apaixonada por literatura. Mãe de gente, de pet e de planta. 

2 respostas

  1. A poucos dia conheci o estoicismo, o que me fez mudar, foi que eu andava preocupado com problemas simples do dia a dia: tipo… está acabando a ração do cachorro, mais faltava dois ou três dias ainda. Lá estava eu todo preocupado, tinha ração não acabou, eu me martirizando por algo que nem tinha acontecido. No caso acabado a ração. Foi aí que mudei numa velocidade inimaginável. Opa quando acabar a ração de verdade eu compra mais. Eureca 😁. E assim foi com várias outros problemas. Acabou gaz, compre outro, venceu a luz, pague. Parece simples e óbvio, mais para quem está pagando tudo atrasado sabe que estou falando. Essa mudança e energia que está em mim, desejo que todos contam no momento em que leram . Obrigado

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