Daí que eu li A filha perdida, de Elena Ferrante [resenha]

2021 foi o ano do grande hype de A filha perdida, o terceiro romance da autora italiana Elena Ferrante. Ao menos na minha bolha, todo mundo parecia estar lendo e comentando o livro que, no fim daquele mesmo ano, virou filme, disponível na Netflix.

Mas, como eu sou anti-hype na maioria das minhas escolhar literárias, decidi esperar até que ninguém mais estivesse falando pra ler, ou melhor, ouvir o audiobook e, finalmente, saber se o livro é tudo aquilo que diziam. Este post é, portanto, a minha opinião sobre o livro. Como sempre, você pode discordar, respeitosamente, nos comentários.

A filha perdida foi lançado em 2006, mas só chegou ao Brasil, com tradução PT-BR, dez anos depois, em 2016, pela Intrínseca. E, em 2021, virou filme, adaptado pela Netflix, o que talvez tenha motivado o hype entre as pessoas que eu acompanho nas redes sociais.

O livro conta a história de Leda, uma professora universitária, que decide tirar férias no litoral da Itália depois que suas filhas vão morar com o pai, no Canadá. Aliviada das responsabilidades maternas, Leda se vê, novamente, em conflito quando encontra na praia uma família napolitana. O relacionamento de Nina com sua filha pequena, Elena, desperta em Leda recordações enterradas e verdades quase inconfessáveis.

Como eu passei longe do hype, não fazia muita ideia do que esperar do livro. Logo de cara, fiquei positivamente surpresa com a escrita da Elena Ferrante que flui muito bem. Como a “narradora” é a nossa protagonista, a gente se sente dentro da cabeça dela, enquanto ela lembra do passado com as filhas e se depara com o presente, no contato com Nina e Elena.

Se quiser, você também pode ver essa resenha em vídeo:

Se isso, por um lado, nos faz entender a protagonista, por outro, torna mais difícil termos empatia com ela. No espaço seguro de seus próprios pensamentos, ela revela atitudes, comportamentos e ideias que chocam o leitor, principalmente aquele que tem as mães como seres iluminados, superiores, cheias de altruísmo e amor incondicional pelos filhos.

Leda não é esse tipo de mãe. Não existe uma maternidade desejada, romantizada, esperada ali. O que há é uma experiência materna crua, dura, atravessada pelas vivências que ela teve com a própria mãe e que, de certa forma, reproduz com as filhas. Qualquer mãe (ou, ao menos, boa parte delas) entende os sentimentos conflitantes que a protagonista experimenta.

Por isso, eu comecei o livro com uma boa dose de empatia por ela. Mas, o desenvolvimento me fez terminar a leitura querendo entrar no livro e gritar pra todo mundo da família da Leda: parem o que estiverem fazendo e façam terapia, já! O passado pode ter sido muito difícil, mas não há por que continuarem a repeti-lo.

Como o livro é narrado pelo ponto de vista da protagonista, a gente fica com informações limitadas, o que me deixou com algumas inquietações:

  • Ela se vê muito sozinha com as meninas. Não havia rede de apoio? Não havia creche? As crianças não tinham amiguinhas com quem brincar e, assim, criar espaços de respiro pra mãe?
  • A falta de comunicação com o (ex-)marido. Ela menciona apenas o marido viajando sempre, fazendo carreira, enquanto ela ficou em casa para cuidar das meninas. Eles chegaram a conversar a respeito?
  • A relação do pai com as filhas. Nós ficamos sabendo de apenas dois momentos dessa relação: quando ela deixa as filhas com ele, ainda crianças; e quando elas vão morar com ele, já jovens. Ele podia não ser um pai muito presente, mas as meninas parecem ter algum afeto por ele.

Se você já leu o livro ou se não liga para spoilers, nesta parte eu vou contar alguns detalhes que eu achei críticos e que merecem uma reflexão à parte.

Uma aspecto da narrativa que me chamou a atenção foi que o livro começa com desafios que muitas mães passam (e até aí, eu estava com a Leda), mas ele escala a um ponto que, pra mim, foi um tanto absurdo (ainda que eu entenda que possa ser verdadeiro para muitas mulheres) e termina suavizando, pra, talvez, nos chamar de volta à empatia com a protagonista.

Explico: o início, até o capítulo 10 ou 11, fala sobre cansaço materno, expectativas e realidades, entre outros desafios que as mães enfrentam, com todas as suas particularidades, seja na Itália, seja no Brasil. E aí, a gente se identifica com a Leda e entende certas posturas dela. Mas, conforme ela continua nos contando sua história, a partir do capítulo 13, mais ou menos, algumas coisas ficam difíceis de engolir passivamente:

A crueldade com as crianças

Em dado trecho, ela diz que uma das filhas deu um tapa nela, ainda criança. E sabemos que crianças fazem isso, ainda que não seja correto, até porque elas não têm, ainda, muita noção do que é certo. A Leda, devolve a agressão e relata que não estava corrigindo a filha, mas se vingando dela, extraindo certo prazer em bater na filha.

Ok, tem horas em que as crianças testam nossa paciência. Mas, penso na disparidade entre o tapa de uma criança pequena e de um adulto, muito maior e mais experiente. Poderíamos dizer que foi uma falha do momento, um lapso de julgamento causado pela exaustão, pela irritação. Defenderíamos Leda dizendo que ela era jovem quando teve as filhas.

Mas, mesmo narrando esse fato anos depois, ela não demonstra culpa, remorso ou arrependimento pelos seus atos. Parece que faria tudo de novo, se fosse hoje.

A disputa com as filhas

Com as meninas já adolescentes, Leda vive o dilema de querer proteger as filhas e, ao mesmo tempo, ver nelas uma juventude que ela teria perdido. Nasce o ciúme, que se revela numa certa disputa que ela mesma cria com as filhas.

Em dado ponto, ela começa a flertar com um amigo (ou crush?) das meninas a tal ponto que uma das filhas reclama com a mãe e ela se faz de desentendida, quando sabia muito bem o que estava fazendo.

Só eu que achei muito problemático uma adulta flertando com um adolescente? Se fosse um homem adulto com uma menina adolescente teria chamado mais a atenção pra um negócio muito errado?

A experiência pessoal como regra

Até aqui, os problemas que eu mencionei foram coisas do passado. Poderíamos pensar que nossa protagonista evoluiu, aprendeu com os erros, ainda que isso não os apague. Mas Leda continua sendo a mesma pessoa, a tal ponto que se incomoda com a relação carinhosa entre Nina e sua filha Elena. Pior: ela se incomoda com a relação entre a menina e a boneca, chegando a esconder o brinquedo durante dias, deixando a criança mal, sem motivo e sem um pingo de preocupação com isso. E ainda faz cara de paisagem quando é descoberta!

Apesar de tudo isso, ela diz que quer conversar com Nina para aconselhá-la (sobre o quê, querida?). Ela sequer conseguiu refletir direito sobre a própria vida, a própria experiência de maternidade e agora se acha A entendida do assunto pra aconselhar quem não pediu conselho?

E esse é um ponto que eu acho muito problemático: querer transformar nossas experiências (boas ou más) em regras para a vida alheia. Não existe uma única forma de ser mãe, assim como não existe apenas uma forma de viver. E é muito presunçoso, de nossa parte, achar que temos as respostas para todas perguntas.

Uma das coisas que eu ouvi, na época em que todo mundo falava sobre A filha perdida, é que esse era um livro sobre a maternidade real. Eu diria que é um livro sobre uma maternidade real. Não nego que possam existir mães que passam/passaram por situações e sentimentos próximos aos que a Leda passou, mas tenho certeza de que esse não é o único tipo de experiência possível.

Terminei o livro com uma profunda compaixão pelas filhas da Leda e com um certo nó na garganta por ver a protagonista continuar do mesmo jeito que começou.

Formato: audiobook, disponível no Audible.

Nota: ⭐⭐⭐⭐

Pretendo reler? Não.


Você já leu A filha perdida? O que achou do livro? Me conta nos comentários pra gente continuar essa conversa.

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Olá, eu sou a Fernanda!

Sou professora e doutora em filosofia, apaixonada por literatura. Mãe de gente, de pet e de planta. 

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